Há poucos espetáculos tão comoventes quanto ver, à luz das estrelas, uma tartaruga-de-couro de mais de 500 quilos emergir da arrebentação, cavar seu ninho com a pura força das nadadeiras por quase duas horas e depois voltar para o Atlântico sem um único olhar para trás. Acompanho viajantes por esta costa há vários anos e, a cada temporada, sinto a mesma emoção. Se você hesita em ir até o extremo oeste do território, este artigo é para você: aqui falamos da desova das tartarugas-de-couro na Guiana Francesa, do calendário real e dos bons locais da praia des Hattes, mas também de como vivê-la respeitando o sítio ameríndio e o próprio animal.
Por que Awala-Yalimapo é um sítio único no mundo
Awala-Yalimapo é o município mais ocidental da Guiana Francesa, situado na foz do rio Maroni, em frente ao Suriname. A praia des Hattes e a ponta Isère formam um dos mais importantes sítios de desova de tartarugas-de-couro do planeta. Larga faixa de areia batida pelo Atlântico e alimentada com sedimentos pelo Amazonas e pelo Maroni, a praia acolhe a cada ano centenas de subidas para desovar. Em algumas noites de plena temporada, várias dezenas de tartarugas se revezam na mesma orla.
O município é um território kali’na, povo ameríndio cuja cultura é muito viva. Uma parte da praia é classificada como Reserva natural nacional de l’Amana, o que regula estritamente o acesso e a observação. Por isso não se vem aqui como a um parque de diversões: a pessoa é recebida em uma terra habitada, sagrada para seus habitantes, e é precisamente isso que torna a experiência tão intensa.
A tartaruga-de-couro, gigante dos oceanos
A tartaruga-de-couro (Dermochelys coriacea) é a maior tartaruga marinha do mundo e o maior réptil marinho vivo:
- até 2 metros de comprimento e mais de 600 kg para as fêmeas maiores (frequentemente de 1,50 a 1,80 m nas praias guianenses);
- um casco mole e emborrachado, sem escamas duras, percorrido por sete cristas longitudinais que evocam as cordas de um alaúde (luth em francês), de onde vem seu nome;
- uma duração de desova de cerca de 1 h a 1 h 30 (até 2 h em algumas), para um ninho de 80 a 100 ovos fecundados;
- uma fêmea pode voltar a desovar várias vezes na mesma temporada, com cerca de dez dias de intervalo.
Três outras espécies frequentam também a costa guianense: a tartaruga-verde, a tartaruga-oliva e, mais raramente, a tartaruga-de-pente. Mas a de couro, a mais espetacular, continua sendo a estrela de Awala.

Calendário da desova: quando vir a Awala?
O calendário é o fator número um de sucesso. Estes são os marcos que sempre indico:
- Março: primeiras subidas, ainda esparsas. Para os pacientes.
- Abril a junho: pico da desova das tartarugas-de-couro, com o maior número de fêmeas a cada noite, às vezes várias ao mesmo tempo no mesmo trecho de praia. É o período rei.
- Julho: fim da desova das de couro, que se sobrepõe às primeiras emergências (saída dos filhotes, após uma incubação de cerca de 60 a 65 dias).
- Agosto a setembro: eclosões e emergência dos recém-nascidos que rumam ao oceano; as tartarugas-verdes e oliva prolongam a atividade.
Há uma nuance importante a conhecer. A grande estação seca turística da Guiana vai de meados de julho a meados de novembro: é a melhor época meteorológica para visitar o território. Ora, o pico de desova das de couro (maio-junho) cai na estação das chuvas. Boa notícia: em julho, as duas janelas se sobrepõem. Se seu objetivo número um é ver uma tartaruga-de-couro desovar, mire em abril a junho. Se você quer tentar a dupla chance de desova mais primeiros filhotes, no momento em que o clima começa a secar, início de julho é, a meu ver, o compromisso ideal.
A que horas vir
As tartarugas desovam quase sempre à noite, geralmente entre 20 h e 2 h da madrugada (às vezes até o amanhecer), frequentemente em torno da maré alta. A maré conta muito: as subidas são mais numerosas na maré alta ou enchente, pois as fêmeas aproveitam o nível da água para se aproximar da parte alta da praia. Informe-se sobre os horários de maré do dia (afixados localmente e consultáveis on-line), chegue no fim da tarde (por volta das 18 h 30-19 h nessas latitudes) e conte com uma a duas horas no local para maximizar suas chances.
Os bons locais na praia des Hattes
A praia des Hattes se estende por vários quilômetros. Nem todos os setores são iguais conforme o período e a erosão da areia, que muda de um ano para outro.
- Ponta Isère e setor leste da praia: zonas historicamente muito frequentadas pelas de couro, frequentemente as mais densas no pico da temporada.
- Em frente ao povoado de Yalimapo: o acesso mais simples, prático para uma primeira observação a pé.
- Praia des Hattes do lado da foz do Maroni: ambiente mais selvagem, melhor com um acompanhante conhecedor.
Meu conselho: não saia às cegas. Passe primeiro pela Maison de la Réserve naturelle de l’Amana ou por um guia local kali’na. Eles sabem onde as subidas se concentram na semana da sua vinda e evitarão que você pise em ninhos.
As regras de ouro para observar sem perturbar
Este é o cerne do assunto. Uma tartaruga em plena desova é extremamente sensível às perturbações, sobretudo durante a fase em que cava seu ninho e escolhe seu local: uma fêmea perturbada pode dar meia-volta sem desovar. Os filhotes, por sua vez, orientam-se para o horizonte mais luminoso, e a menor lâmpada os desorienta. Estas são as regras que lembro sistematicamente, e que correspondem às instruções da reserva:
- Nada de luz branca. Lanternas de cabeça, telefones, telas: tudo isso desorienta as tartarugas e os filhotes. Use unicamente uma lâmpada com filtro vermelho, e o mínimo possível.
- Nenhum flash, jamais. A foto com flash pode fazer uma fêmea desistir de desovar, nem sobre o adulto nem sobre os filhotes.
- Fique atrás da tartaruga, nunca à frente de sua cabeça, e mantenha distância enquanto ela procura seu local.
- Aproxime-se apenas durante a desova. Uma vez que a fêmea está desovando, ela entra em uma espécie de transe e tolera melhor uma presença discreta. Antes disso, fique afastado.
- Silêncio e calma: nada de gritos, nada de música, nada de movimentos bruscos.
- Não toque na tartaruga nem nos ovos, não caminhe pela parte alta da praia onde estão enterrados os ninhos, nunca suba sobre eles.
- Siga um guia da reserva ou de uma associação local: é a melhor maneira de se aproximar no momento certo e no lugar certo.
- Respeite o sítio kali’na: você está em uma terra ameríndia. Não se acampa em qualquer lugar, não se deixa nenhum lixo, pede-se permissão antes de fotografar as pessoas.
Visitas guiadas e associações
Várias estruturas supervisionam a observação, em particular a associação Kwata e os guias locais de Awala. Algumas atividades da reserva são gratuitas ou de preço modesto; as saídas guiadas custam em geral entre 15 e 30 € por pessoa, às vezes menos para as crianças. Elas aumentam fortemente suas chances de ver uma desova completa garantindo um comportamento respeitoso. A Maison de la Réserve de l’Amana, no local, lhe dará as informações atualizadas sobre as noites propícias.
