No mercado, diante de uma bela banca de legumes da terra, um dos meus hóspedes me soltou outro dia: “Dá mesmo para comprar isso, com a clordecona?”. A pergunta é legítima, e ela aparece em quase toda estadia. Depois de vários anos morando na ilha e recebendo viajantes, aprendi que se conversa melhor sobre o assunto com fatos do que com medos. Então aqui está, sem rodeios nem alarmismo, o que é preciso entender sobre a clordecona na Martinica quando se vem de férias: o que representa de fato esse pesticida, quais produtos e zonas de pesca merecem atenção e, sobretudo, como continuar a saborear a cozinha crioula com total confiança.
A clordecona na Martinica, o que é?
A clordecona é um pesticida organoclorado usado nos bananais das Antilhas francesas entre 1972 e 1993 para combater o gorgulho. Proibida há mais de trinta anos, ela ainda assim continua a causar problema: é uma molécula extremamente estável que quase não se degrada. Os cientistas estimam que ela permanecerá presente em certos solos por várias décadas, ou mesmo vários séculos. É uma questão séria de saúde pública, reconhecida pelo Estado, que lançou vários planos de ação.
Para um viajante, o essencial cabe em uma frase: a clordecona é um poluente da terra, não do mar nem do ar. Não se respira, não se pega tomando banho. A única via de exposição identificada pelas autoridades sanitárias é a alimentação — e, mesmo assim, apenas para certos produtos provenientes de zonas específicas. Tudo o que importa para você se decide, portanto, no prato, e isso se administra de forma muito simples.
Como a contaminação chega (ou não) ao prato
A molécula adere aos solos e aos sedimentos, sobretudo onde os bananais estavam implantados (o centro e o nordeste da ilha, nas terras vulcânicas). Ela migra lentamente em direção aos rios e depois a certas fozes costeiras. Os produtos potencialmente envolvidos são, portanto:
- os legumes de raiz cultivados em solo contaminado: inhame, dachine (taro), batata-doce, malanga, mandioca;
- certos peixes e crustáceos de fundo que vivem em zonas costeiras ou rios poluídos, que acumulam a molécula em sua carne;
- a água de certos rios situados a jusante das antigas plantações (nunca a água da torneira, que é tratada e controlada).
Ao contrário, a imensa maioria do que você vai comer durante a estadia — peixe de alto-mar, frutas tropicais, produtos importados, pratos de restaurante — não é afetada. A questão não é “é preciso ter medo de tudo”, mas “quais são os dois ou três reflexos que bastam”.

Pode-se comer peixe na Martinica?
É a pergunta número um, e a resposta é tranquilizadora: sim, o peixe vendido pelo circuito oficial é seguro. Os pescadores profissionais trabalham em zonas autorizadas e suas capturas são controladas. No restaurante, no mercado coberto ou numa peixaria declarada, você come sem receio.
A chave para responder à pergunta “pode-se comer peixe na Martinica” resume-se a uma palavra: pelágico. Os peixes de alto-mar não frequentam os sedimentos onde se aloja o pesticida na Martinica e, portanto, não apresentam nenhum problema de clordecona. Dê preferência a eles, pois constituem justamente o coração da gastronomia local:
- o atum e o dourado (a “dorade” dos cardápios, ou mahi-mahi);
- o cavala-empinge ou wahoo (rei do court-bouillon crioulo);
- o marlim (frequentemente defumado), a bonito e o vermelho (pargo) comprados pelo circuito oficial.
Conte com cerca de 15 a 25 € o quilo de atum ou de dourado conforme a estação e a chegada, um pouco menos de manhã cedo diretamente com os pescadores nos pontões de Le Robert, Le François ou Sainte-Luce. Um court-bouillon de cavala-empinge, uns acarajés de bacalhau, um colombo de peixe: esses pratos do dia a dia não apresentam estritamente nenhum problema.
Os peixes e produtos com os quais permanecer vigilante
A verdadeira vigilância diz respeito à pesca de fundo e de rio nas zonas poluídas pela clordecona. Decretos da prefeitura proíbem ou regulamentam ali a captura, principalmente na fachada atlântica (de Le Robert à baía do Galion) e nos rios do norte. As espécies que mais acumulam a molécula são aquelas que reviram os sedimentos:
- os peixes de fundo de certas baías do leste;
- as lagostas e crustáceos de zonas regulamentadas;
- sobretudo os ouassous (grandes camarões de água doce) pescados em rios contaminados.
O reflexo é simples: não compre peixe nem crustáceos à beira da estrada de um pescador amador e, se for pescar nas férias, informe-se sobre as zonas autorizadas antes de lançar a vara no rio ou na foz. Passando pelos mercados, peixarias e lolos declarados, você fica tranquilo. Quanto à questão vizinha do banho — que, por sua vez, não apresenta nenhum risco químico —, detalhei o assunto em nosso artigo dedicado à clordecona e ao banho de mar na Martinica.
Legumes da terra e mercados: os bons reflexos
Do lado da terra, os legumes de raiz são os produtos mais vigiados, porque são eles que crescem em contato direto com o solo. Mas, também aqui, sem pânico: a cadeia agrícola é controlada, e os produtores das zonas de risco mandam analisar seus terrenos. Meus conselhos de campo para fazer a feira de ânimo leve:
- Compre no mercado coberto ou de um horticultor identificado em vez de aleatoriamente. O mercado de Fort-de-France, os de Le Marin, Sainte-Anne ou La Trinité reúnem produtores declarados. Para preparar bem sua visita, veja nosso guia do mercado de Fort-de-France.
- Varie as fontes e os tipos de produtos. Tomates, alfaces, chuchus, frutas (manga, abacaxi, fruta-pão) crescem fora de solo contaminado ou não armazenam a molécula: nenhum problema.
- As frutas tropicais não são afetadas. Manga, banana, goiaba, maracujá, graviola: delicie-se sem segundas intenções.
- Se você aluga um alojamento com cozinha e gosta de cozinhar suas compras, descasque generosamente os legumes de raiz, um gesto de bom senso que não custa nada.
Saiba também que existem programas de acompanhamento a nível local para ajudar os moradores que têm um jardim a mandar analisar seu solo e adaptar suas culturas. É um sinal de que o assunto é levado a sério no local, bem além do tempo de uma estadia — e de que as cadeias que você frequenta como visitante estão, por sua vez, seguras.
