Vem-se à Martinica pela areia branca de Les Salines, pelo rum agrícola e pela Montanha Pelée. Muitas vezes parte-se lembrando outra coisa: um colibri que zumbe sobre o café da manhã, uma iguana cinzenta imóvel num muro baixo, uma aranha azul elétrico vislumbrada num tronco na floresta. A fauna endêmica da Martinica cruza-se por toda parte, desde que se saiba onde pousar o olhar e a que hora. Depois de anos a percorrer a ilha e a orientar os viajantes que hospedamos, eis o meu guia concreto para detectar essas espécies no terreno, sem parque de animais nem guia caríssimo.
Um lembrete útil: «endêmico» não significa «raro», mas «que só existe ali, ou quase». A Martinica, ilha vulcânica das Pequenas Antilhas, abriga várias espécies impossíveis de encontrar em qualquer outro lugar da França, nem mesmo no planeta. É isso que torna o exercício tão gratificante.
Compreender a fauna endêmica da Martinica antes de observá-la
A Martinica são 1 128 km² entre o mar do Caribe e o Atlântico, com um norte montanhoso e úmido e um sul mais seco. Essa geografia cria micro-habitats: floresta tropical do Norte, morros secos do Sul, manguezais da baía de Génipa, ilhéus da costa atlântica. Cada meio tem a sua assinatura animal.
Três famílias concentram o interesse de quem procura uma ave endêmica das Antilhas ou um bicho impossível de encontrar noutro lugar:
- Os répteis, com a iguana das Pequenas Antilhas e vários lagartos (anolis, mabouyas).
- As aves, entre elas o sabiá-de-peito-branco, o cambacica, o colibri-de-garganta-roxa e o corrupião da Martinica.
- Os invertebrados emblemáticos, em primeiro lugar a caranguejeira matoutou falaise, orgulho discreto das florestas do Norte.
Boa notícia: nenhuma espécie perigosa o espreita. Não há cobra venenosa mortal como na vizinha Santa Lúcia, pois a jararaca foi erradicada da maioria das zonas frequentadas. Aqui observa-se com toda a tranquilidade.

A matoutou falaise, a caranguejeira azul das florestas do Norte
É a estrela secreta da ilha. A matoutou falaise (Caribena versicolor) é uma caranguejeira arborícola estritamente endêmica da Martinica, ao ponto de se ter tornado um símbolo naturalista. Adulta, exibe um corpo verde-acinzentado e patas de um azul metálico espetacular; jovem, vira azul intenso e depois rosa. Nenhuma outra caranguejeira no mundo apresenta esta paleta.
Fique tranquilo desde já: é inofensiva para o ser humano, a sua picada é comparável a uma ferroada de vespa e ela foge do contato. Nunca se manipula — é uma espécie protegida por decreto, cuja captura e transporte são estritamente proibidos.
Onde e quando localizá-la
- Habitat: floresta tropical úmida do Norte (área da Montanha Pelée, Pitons du Carbet, Route de la Trace, Ajoupa-Bouillon). Tece um refúgio de seda nas fendas da casca, nas bromélias e nas cavidades dos troncos.
- Estação: o ano todo, mas mais ativa na estação úmida. Os machos errantes vêem-se mais no final do ano.
- Dica de campo: procure as teias de seda branca nos troncos à beira da trilha. Com lanterna de cabeça, à noite, às vezes detecta-se o reflexo dos olhos. De dia, esquadrinhe as cascas sem perturbar nada.
O colibri-de-garganta-roxa e as aves dos morros
Se a caranguejeira exige atenção, as aves vêm até você. O colibri-de-garganta-roxa (Eulampis jugularis) é um dos mais belos: plumagem verde-escura irisada, garganta vermelha deslumbrante que flameja ao sol. Não é um endêmico estrito da Martinica — habita o arco antilhano —, mas é o arquétipo da ave endêmica das Antilhas que todos esperam fotografar.
Confunde-se com o colibri-de-crista (o famoso «foufou») e o colibri-de-garganta-verde, ambos fáceis de ver perto das flores de helicônia, hibisco ou alpínia.
Os meus melhores pontos de observação ornitológica
- O Jardim de Balata, perto de Fort-de-France: um concentrado de colibris e cambacicas atraídos pelas flores (entrada em torno de 16 € por adulto, abertura por volta das 9h). De manhã, antes da multidão, é imbatível.
- A península da Caravelle (Tartane): a reserva natural abriga o sabiá-de-peito-branco, trinta-réis e maçaricos ao longo do manguezal.
- O seu próprio terraço: um bebedouro de água açucarada ou simplesmente um jardim florido basta para atrair colibris e cambacicas ao amanhecer.
- Os morros do Sul e as margens do manguezal (baía de Génipa) para garças, garças-brancas e o corrupião da Martinica, este sim realmente endêmico.
O corrupião da Martinica (Icterus bonana), preto e ruivo, é aliás a ave-símbolo da ilha: classificado como vulnerável, é preciso merecê-lo, nas zonas arborizadas do centro e do Norte.
A iguana das Pequenas Antilhas, réptil endêmico por um fio
Impossível falar da fauna endêmica da Martinica sem a iguana das Pequenas Antilhas (Iguana delicatissima), grande lagarto cinza-esverdeado que pode ultrapassar um metro. Está em perigo, ameaçada pela iguana comum introduzida, que a hibrida e a suplanta.
Distingui-la é todo o desafio:
- Iguana das Pequenas Antilhas (a endêmica a proteger): pelagem cinza a verde-escura, cauda sem riscas, bochechas com grandes escamas claras.
- Iguana comum (a invasora): cauda anelada de preto e grande escama redonda sob o tímpano.
O seu último bastião sólido é o ilhéu Chancel, na baía de Le Robert, acessível de caiaque (25 a 40 € a meia jornada guiada) ou de barco. Como é helioterma, mire numa manhã ensolarada: então aquece-se, imóvel, nos muros e nas rochas.
